Vídeo: A história de REDD – Uma real solução para o desmatamento?

(Tradução de conteúdos em inglês de REDD-Monitor),

Um novo desenho animado sobre REDD foi lançado na semana passada, no encontro anual do Movimento das Florestas da Europa em Portugal. “Este filme tenta explicar as questões-chave de maneira simples de compreender”, diz Wolfgang Kuhlmann da ARA , uma das sete ONGs que produziram o filme. “O desmatamento global não pode ser resolvido sem abordar o excesso de consumo que impulsiona o desmatamento”, acrescenta Kuhlmann.
Além de ARA, seis ONGs estiveram envolvidas na produção do filme: Amis de la Terre, Euronatura, FERN, Forest Peoples Programme, Iroko, Pro-Regenwald, Rainforest Foundation UK e Terra. Veja abaixo o filme em inglês com legendas em português (tradução nossa). O vídeo também está disponível em francês e espanhol .

(caso que as legendas não aparecam automaticamente, clique no botão “CC” no rodapé do vídeo para ativá-las)

DIVULGAÇÃO: Carta Declaratória sobre a Prospecção e Exploração de Petróleo e Gás no Juruá

Reunidos na cidade de Cruzeiro do Sul durante o Seminário “Petróleo, Gás e Ferrovia no Juruá: Desafios e Oportunidades para as Comunidades”, no dia 14 de abril de 2012, nós, representantes de 09 povos, 12 Terras Indígenas e 04 associações indígenas, por intermédio desta carta, apresentamos alguns pontos que entendemos são de extrema urgência e de importância para serem considerados e tratados pela Presidente da República, a Agência Nacional de Petróleo, o Governo do Estado do Acre e demais instituições envolvidas.

É de nosso conhecimento que as atividades de prospecção de petróleo e gás estão ocorrendo na região do Juruá, especificamente nos Municípios de Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Walter e Marechal Taumaturgo, sem os informes e os esclarecimentos necessários para salvaguarda da população e do meio ambiente da região, caso venha acontecer algum prejuízo.

Nós percebemos que até o momento vem acontecendo reuniões e encontros políticos que tratam sobre esses grandes projetos de desenvolvimento. Não foram consideradas, contudo, as reuniões de informação e de consulta com a população da região, que seriam de extrema importância para discutir os riscos e benefícios de forma bem transparente.

De acordo com o mapa de linhas sísmicas da empresa Georadar, a atividade chegará próxima às Terras Indígenas Campinas-Katukina, Poyanawa, Jaminawa do Igarapé Preto e Arara do Igarapé Humaitá, além do Parque Nacional da Serra do Divisor, podendo ocasionar impactos ambientais, sociais e culturais, diretos e indiretos, nos territórios, nas populações indígenas e populações tradicionais.

Cientes dos direitos aos nossos territórios e a processos de  Consulta Livre, Previa e Informada, com base no Artigo 231 da Constituição Federal: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar seus bens”, e no seu inciso 3: “O aproveitamento dos recursos hídricos, incluídos os potenciais energéticos, a pesquisa e a lavra das riquezas minerais em terras indígenas só podem ser efetivadas com autorização do Congresso Nacional, e ouvidas às comunidades.”, nós, lideranças presentes no seminário acima citado, consideramos alguns pontos que podem afetar diretamente os territórios das populações tradicionais da região:

  • Se confirmada a existência de petróleo e gás na terceira fase da prospecção, a do levantamento sísmico, na próxima etapa de exploração podem ocorrer impactos em nossas comunidades e territórios, situação que nos preocupa muito, por que vem contrariar a gestão territorial e ambiental nas terras indígenas e as recomendações do Zoneamento Ecológico Econômico do Estado do Acre;
  • Este processo reforça as ameaças aos direitos indígenas e reforça um modelo de desenvolvimento que ameaça a cultura dos povos indígenas, como por exemplo, a criação de dependência das comunidades a novas necessidades.
  • Durante 10 meses, a empresa Georadar vai contratar cerca de 400 pessoas da região para trabalhar como mão de obra nas picadas. Esta quantidade de pessoas vai ficar acampada, tendo que abrir clareiras e picadas, criando impactos muito grandes sobre os animais que constitui a principal alimentação dos moradores da floresta. Esses trabalhadores vão criar uma grande movimentação fluvial e terrestre, que pode ocasionar poluição dos rios, afetando a saúde da população local. Estamos preocupados, ainda, com os impactos sociais que a presença dessa quantidade de homens pode causar nas comunidades e mesmo nas cidades onde funcionarão os acampamentos.
  • Temos o direito de sermos informados sobre os locais onde estão ocorrendo às atividades de prospecção de petróleo e gás e, também, devemos saber como estes processos estarão sendo feitos. Uma política de informação deve ser desenvolvida nas comunidades da região, para alertá-las dos trabalhos que serão realizados e dos riscos que estes envolvem.
  • Não precisamos de assistencialismo, mas queremos benefícios, através de projetos de saúde de qualidade, de educação, de produção sustentável e do fortalecimento da nossa organização social e cultural nas nossas terras e de nossas organizações de representação.
  • Para além das medidas já previstas no Plano de Controle Ambiental e na licença concedida pelo IBAMA, temos direito, como parte de um processo de consulta livre, prévia e informada, de debater as formas de compensação e repartição de benefícios dos empreendimentos ligados ao desenvolvimento regional.
  • Requeremos que os órgãos ambientais (IBAMA, ICMBio, SEMA e IMAC) e os Ministérios Públicos Federal e Estadual façam respeitar a legislação e as salvaguardas ambientais relativas à prospecção e à exploração de petróleo e gás, socializando e divulgando os relatórios relativos às fiscalizações e ao cumprimento dos condicionantes do licenciamento.
  •  Rejeitamos possíveis mudanças na legislação, na regulamentação da lei de mineração no Congresso Nacional, que vise abrir as terras indígenas à prospecção e à exploração de petróleo e gás, por que vai contra os direitos indígenas, consagrados na Constituição Federal e nas convenções internacionais (Convenção 169 da OIT e Declaração dos Direitos Indígenas da ONU).

 

Cruzeiro do Sul – Acre, 14 de Abril de 2012

 

Assinam esta carta

  • Organização dos Professores indígenas do Acre (OPIAC)
  • Associação Apiwtxa do Rio Amônea
  • Associação do Povo Arara do Igarapé Humaitá – APAIH
  • Associação do Povo Indígena Nukini da Republica – AIN
  • E representantes das Terras Indígenas
  • Nukini
  • Kaxinawá do Rio Jordão
  • Campinas/Katukina
  • Kaxinawá da Praia do Carapanã
  • Rio Gregório
  • Kaxinawá/Ashaninka do rio Breu
  • Cabeceira do Rio Acre
  • Arara do Igarapé Humaitá

Consentimento Livre, Prévio e Informado – uma reflexão crítica

O governo brasileiro está iniciando a regulamentação da Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tribais. Esta convenção, criada em 1989 e ratificada pelo Brasil em 2002 exige que se busque, através de consultas, o consentimento livre, prévio e informado destes povos, para medidas que afetem suas vidas, crenças, instituições, valores espirituais e a terra que ocupam ou utilizam.
A princípio esta regulamentação se apresenta como um importante passo na garantia de direitos dos povos da floresta, podendo previnir a invasão de suas terras, a espoliação dos seus recursos e o atropelamento por impactantes megaprojetos, tais como usinas hidrelétricas e rodovias.
Entretanto, observam-se tendências neste início dos debates sobre a regulamentação da consulta que indicam que a mesma não vai de fato fortalecer os povos indígenas no seu direito de autodeterminação. Para evidenciar estas tendências podemos citar estes quatro pontos:
Primeiro, o grupo de trabalho que foi criado pelo governo em janeiro deste ano para apresentar uma proposta de regulamentação, é composto apenas por representantes governamentais. Não tendo participação dos povos indígenas e comunidades locais, a criação do grupo já desrespeita o segundo artigo da da convenção que estabelece que “Os governos deverão assumir a responsabilidade de desenvolver, com a participação dos povos interessados, ação coordenada e sistemática com vistas a proteger os direitos desses povos e a garantir o respeito à sua integridade.”

Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, no contexto da regulamentação da OIT 169:   "Nós precisamos das estradas, das hidrelétricas. Não vamos sonhar com um país idílico e romantizado em que nada disso seria necessário"
Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, no contexto da regulamentação da OIT 169: “Nós precisamos das estradas, das hidrelétricas. Não vamos sonhar com um país idílico e romantizado em que nada disso seria necessário” (Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/04/120424_indios_consulta_jf_ac.shtml, Fotografia: http://searanews.com.br/?p=2316)

Segundo, o governo brasileiro, já no início dos debates acerca da  regulamentação, através de pronunciamentos do ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência, deixou claro que o direito à consulta não pode também incluir o direito de vetar as obras em questão. Concebendo a consulta desta forma não vinculante, o consentimento passa a ser redundante e perde seu significado de direito.
Terceiro, no Peru, o processo de regulamentação já foi concluído. Os interesses do governo deste país vizinho em executar obras infraestruturais na Amazônia são estreitamente entrelaçados com os do governo brasileiro. Organizações da sociedade civil peruana expressaram sua preocupação, alegando que seu governo, através do regulamento  não teria  atendido  as normas da OIT 169 estabelecidas para os processos de consulta.
Quarto, a regulamentação obviamente atende a certos interesses econômicos por parte do setor privado, uma vez que gera segurança jurídica para contratos comerciais com as comunidades. Principalmente os novos negócios “verdes”, tais como geração e comercialização de eco-créditos em base de carbono florestal ou de outros serviços ambientais a partir das terras indígenas se tornarão mais garantidos para os investidores, uma vez que o processo de consulta às comunidades afetadas será juridicamente definido, podendo ser comprovado e – se for preciso – posteriormente reivindicado.
Quero, neste texto, introduzir alguns questionamentos acerca dos conceitos de consulta e  consentimento livres, prévios e informados, e fazer uma breve reflexão sobre o processo de construção do indígena como sujeito de direito.

A questão da liberdade (consulta livre)
O consentimento deve ser dado livremente. Nas suas recentes propostas de diretrizes para a regulamentação da Convenção 169, a Rede de Cooperação Alternativa (RCA) em conjunto com outras organizações da sociedade civil, recomenda neste sentido:  “Os processos de consulta devem ser livres de qualquer tipo de pressão política, econômica ou moral.”
Mas esta situação existe na prática? Os povos indígenas hoje sofrem pressões de todos os lados, muitos deles lutando pela sua sobrevivência cultural e física. Tomando como exemplo consentimento das comunidades Paiter-Suruí que viabilizou um projeto de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) em suas terras. O processo de consulta durou em torno de dois anos e contou com o acompanhamento da FUNAI. A extensa consulta que antecedeu os contratos dos Suruí contribuiu para que este projeto hoje seja considerado um bom exemplo da forma “correta” de envolver comunidades indígenas no comércio de carbono, recebendo inclusive premiações internacionais.
Mas até que grau podemos dizer que o consentimento dos Suruí foi dado livremente? Numa publicação dos proponentes deste projeto lemos: “Com a maior parte da floresta do seu entorno transformada em área agrícola ou pastagem, os Paiter Suruí encontram-se sob constante ameaça para abrir suas terras para atividades similares, …” Entende-se a partir do artigo, que foi justamente a pressão sofrida – a tendência do desmatamento futuro – que justificou o projeto REDD, que consiste em evitar este desmatamento esperado.
Sobre a decisão das comunidades de aceitar o projeto REDD, o artigo informa ainda: “Entretanto, como ocorre com quaisquer mecanismos novos ou acordos entre os mercados e os povos indígenas, esses tipos de  mecanismos de REDD não deixam de apresentar um risco. […] No entanto, o risco de outras opções é igualmente grande no caso dos Paiter Suruí, como, por exemplo, a perda do controle das florestas e do território determinada pelos mercados de produtos como carne, madeira e soja.” Entende-se então que as comunidades se sentiram forçadas de escolher entre a adesão à diferentes mercados e optaram pelo carbono. Enfim, aceitando o projeto REDD eles cederam à pressão econômica, e sua liberdade de consentimento reduziu-se à escolha da opção que neste momento lhes parecia trazer menos riscos ou prejuízos.

A questão da precedência (consulta prévia)
A consulta, em conformidade com a OIT 169, deve ocorrer antes de qualquer decisão que impacte os territórios dos povos indígenas. Tomamos como exemplo a construção da hidroelétrica Belo Monte. Neste caso, o governo Brasileiro – após ter iniciado as obras sem devidamente consultar os povos indígenas afetados – foi advertido pela Comissão de Especialistas em Aplicação de Convênios e Recomendações da OIT sobre o fato que “… o Governo é obrigado a consultar os povos indígenas antes de se empreender ou autorizar qualquer programa de exploração de recursos em suas terras”. (grifos nossos)
Entretanto, a decisão de construir Belo Monte já é consequência de uma série de outras decisões anteriores do governo: a decisão de atender a demanda da indústria de alumínio por energia elétrica barata, a decisão de não optar por tecnologias alternativas de geração de energia elétrica a partir de fontes alternativas, tais como fontes eólicas, de pequenas centrais hidrelétricas ou de biomassa. Estas decisões, por sua vez são decorrentes da decisão de seguir um determinado modelo de desenvolvimento, baseado no acelerado crescimento econômico e na maciça exportação de produtos primários. Através destas politicas, em boa parte decididas na época da ditadura e continuadas pelo governo atual, a construção das grandes hidroelétricas ganhou o caráter de uma “necessidade”.
Estas decisões políticas precedentes foram tomadas sem nenhuma participação dos povos indígenas.
Na verdade, estes povos se encontram permanentemente numa situação re-ativa, desde o primeiro contato com os colonizadores, tendo sempre que tomar decisões – de fugir ou lutar ou consentir e  adaptar-se – em re-ação a fatos criados pela sociedade dominante. A consulta prévia já não foi feita em 1492 ou 1500, quando pessoas como Colombo e Cabral iniciaram a invasão das terras indígenas e a exploração dos seus recursos. Não podemos desfazer este processo histórico e, na medida em que não somos capazes de invertê-lo, o consentimento dos povos indígenas sempre vai ser reativo e posterior a criação de circunstâncias coercivas para estes povos.

A questão da informação (consulta informada)
As organizações da sociedade civil recomendam que os processos de consulta devam ser realizados “com apresentação de informação verídica, completa e oportuna”.
Entendemos que sociedades indígenas possuem seus próprios sistemas de gestão de conhecimento. A cosmologia e o conhecimento tradicional destas sociedades baseia-se por grande parte nas suas diversas relações com os elementos da natureza e com seus espíritos. Seria ingenua a ideia de que se pode introduzir informação em comunidades indígenas sem ao mesmo tempo causar impactos neste sistema complexo e sensível.
Retomando o exemplo dos projetos REDD, neste caso, provavelmente seriam consideradas “oportunas” para serem repassadas para a comunidade,  informações sobre mudança climática e emissão de gases de efeito estufa.
As comunidades indígenas, na sua convivência com a floresta, certamente percebem nitidamente as mudanças climáticas e ecossistêmicas que vem aumentando nos últimos anos. Certamente eles também tem suas explicações para estes fenômenos. Entretanto, estas explicações seguem uma outra lógica, baseando-se no conhecimento tradicional, na sua cosmologia e espiritualidade.
Como interfere então a informação técnico-científica – tratando de átomos de carbono estocados na biomassa, de técnicas de medição de carbono,  de questões jurídicas referentes à propriedade do carbono estocado, de comércio de carbono – com o conhecimento tradicional? Como a introdução desta informação afeta a autoridade dos principais detentores e transmissores do conhecimento tradicional na comunidade, dos anciãos, dos pajés? Provavelmente serão mais os jovens que “entendem” este assunto técnico, mas na medida em que eles se apropriam da nova lógica, as explicações dos velhos tendem a se tornar obsoletas.
O processo de informação, especialmente na situação transcultural, nunca é um processo neutro de esclarecimento, mas sempre tem um aspecto de interferência, de sobreposição de um conhecimento sobre o outro, de uma nova formação, ou neste caso, “in-formação” da cultura subalterna pela dominante.
E,enfim, a partir de que ponto podemos dizer que a informação seria completa? Depois que a comunidade “entendeu” que fazer seu roçado de subsistência faz mal para o clima, que mais ela deve saber? Ela também deve tomar conhecimento de que a redução de emissões que ela providencia, a partir da venda do certificado, concede o direito à poluir para indústrias em outros lugares do mundo? Ela deve saber quais impactos as emissões destas indústrias compradoras de carbono, como por exemplo na Califórnia, causam? Aonde termina o processo de informação? Quem decide, quais informações devem ser consideradas como oportunas? Como pode ser completa a  informação sobre um tipo de programa, se suas consequências na prática ainda são por boa parte desconhecidos pelos próprios promotores?

O dilema do sujeito autônomo

Fazendo estes questionamentos sobre os princípios que devem reger as consultas com os povos indígenas, nos deparamos com um profundo dilema. O projeto que inicialmente pode ter sido formulado com a intenção de construir relações de boa fé, de justiça, equidade e transparência, não se traduz na sua formulação jurídica. Incorporado no aparelho judiciário estadual, ele corre perigo de ser adaptado, invertido, cooptado pelo interesse exploratório, e potencialmente agravar o quadro de coerção, hegemonia e colonialismo. Como podemos entender melhor este dilema?

Através da  frase  “Cogito, ergo sum” (eu que penso, logo existo) de René Descartes situou o sujeito racional, pensante e consciente no centro do conhecimento
Através da frase “Cogito, ergo sum” (eu que penso, logo existo), René Descartes concebeu o sujeito pensante e consciente no centro de um mundo determinado pela razão.(Foto: http://www.kyreus.com/?attachment_id=382)

As ideias do filósofo René Descartes geralmente são consideradas como marco inicial da época da modernidade. O centro do ideário da modernidade – do iluminismo – é  o conceito do sujeito humano, imaginado como ator autônomo que pensa e age a partir da razão. Baseados na racionalidade, nesta teoria, estes sujeitos seriam capazes de constituir sociedades livres, equitativas e fraternais.
No seculo vinte, o sujeito racional autônomo sofreu uma série de mortificações. O fascismo na Europa mostrou que sociedades que se auto entendem como racionais e esclarecidas não são imunes ao totalitarismo. O capitalismo subverteu os ideais democráticos, gerando cada vez mais desigualdade e exclusão. Os cientistas sociais Theodor W. Adorno e Max Horckheimer analisaram na sua obra “Dialética do Esclarecimento” os paradoxos que envolvem o governo da razão.

“Como, segundo que condições e sob que formas alguma coisa como um sujeito pode aparecer na ordem dos discursos? Que lugar ele pode ocupar em cada tipo de discurso, que funções exercer, e obedecendo a que regras? Trata-se, em suma, de retirar do sujeito (ou do seu substituto) seu papel de fundamento originário, e de analisá-lo como uma função variável e complexa do discurso.” (FOUCAULT, Michel, O Que é um Autor?, em Ditos e Escritos – vol. III.) (Foto: http://www.qualiafolk.com/2011/12/08/ethics/ )

Michel Foucault descreveu o processo de organização de sociedades por meio de sistemas de produção de enunciados que ele chamou de Discursos. A produção discursiva é principalmente promovida por interesses de poder. Na teoria de Foucault, o sujeito racional perde definitivamente sua posição de autonomia e autodeterminação. O discurso não é produzido pelos sujeitos, mas ao contrário, o sujeito é um efeito do discurso. Neste sentido, Foucault declarou a morte do sujeito, marcando assim a transição para a filosofia pós-moderna.
Enquanto na filosofia e na arte se conduziu esta transição paradigmática, nossa organização social, econômica e jurídica continua se baseando nesta “grande narrativa” da modernidade, baseada no sujeito autônomo. Buscamos soluções das crises a partir do nosso auto entendimento como “eleitores responsáveis”, “consumidores conscientes” e “sujeitos de direito”. Mas ao mesmo tempo já sentimos o esgotamento destes conceitos.  Sentimos que o estado de direito, eleição democrática e mercado livre em última consequência não produzem justiça, equidade e liberdade. Ao contrário, percebemos que estas formas de organização tendem a estreitar cada vez mais nossas possibilidades de ação, e a dificultar a concepção de modelos socioeconômicos alternativos. Possibilidades de pensamento e ação alternativos parecem sucumbir, sendo substituídos por um discurso de uniformidade, “necessidade” e uma pseudo-liberdade, permitindo apenas pseudo-escolhas, como entre consumir Pepsi- ou Coca Cola,  votar pelo partido azul ou vermelho, etc..
O fim do sujeito autônomo foi enxergado e declarado pelos filósofos. Mas as formas de organização social e econômica criadas a partir deste modelo de subjetivação continuam em vigor, mesmo com sua base ideológica esgotada e refutada.  Podemos enxergar esta crise do “morto-vivo” sujeito ocidental como configurando no centro das múltiplas outras crises (climática, ambiental, econômica, humanitária, de valores etc.) que a humanidade atualmente enfrenta. Quem somos? Que tipo de sociedade somos capazes de constituir? O capitalismo cego parece ainda ganhar força nesta crise identitária globalizada e vem invadindo os últimos espaços físicos e simbólicos do nosso mundo.
O discurso governamental sobre a regulamentação do mecanismo de consulta,  nesta ótica, se mostra como tentativa de envolver as remanescentes culturas indígenas no falido projeto iluminista das sociedades ocidentais, dando ao sujeito indígena uma pseudo autonomia, constituindo ele como sujeito de direito “apto” para consentir com a alienação de seus recursos e direitos.

Algumas conclusões

Depois de passarem por 11 dias acampados na sede da Funai em Rio Branco e depois de realizarem manifestações públicas, especialmente em frente o palácio do governo do Estado do Acre, uma delegação de 40 indígenas finalmente conseguiu embarcar na manhã de ontem (sábado) para Brasília. Os indígenas exigem seu direito à demarcação de suas terras, atendimento de saúde e educação.

Depois de passarem por 11 dias acampados na sede da Funai em Rio Branco e depois de realizarem manifestações públicas, especialmente em frente o palácio do governo do Estado do Acre, uma delegação de 40 indígenas finalmente conseguiu embarcar na manhã de ontem (sábado) para Brasília. Os indígenas exigem seu direito à demarcação de suas terras, atendimento de saúde e educação. (Fonte: http://lindomarpadilha.blogspot.com.br/ , Foto:Patricia Chaves).

Se for sincera, nossa solidariedade com os povos indígenas e resistência contra sua aniquilação precisa se refletir numa postura mais radical, reforçando reivindicações por eles articuladas, como terra, saúde e educação, em vez de introduzir sofisticadas “soluções“ mercadológicas através de pseudo consultas ou pseudo capacitações.
Se nos ainda acreditamos na possibilidade de uma mudança paradigmática e na nossa capacidade de construir outros mundos,  devemos primeiramente enxergar os mundos dos povos indígenas – sem romantizá-los – como sendo existentes mundos alternativos. Neste sentido devemos nos opor contra sua insidiosa assimilação pela ideologia capitalista.
A linha de argumentação deve ser invertida. A princípio não devem ser criadas situações que exigem um consentimento de povos indígenas a partir de uma posição re-ativa. Quem precisa consentir são em primeiro lugar as indústrias que devem reduzir suas emissões, as sociedades afluentes que devem diminuir seu consumo, os governos que devem desistir das politicas desenvolvimentistas.
De forma mais concreta, há a necessidade da sociedade civil se mobilizar contra uma serie de projetos e  políticas que atualmente ameaçam diretamente o direito constitucional dos povos indígenas sobre suas terras, entre eles: O novo código florestal e, ainda mais direto, a atual proposta de emenda constitucional PEC 215 que visa incluir a aprovação de demarcação das terras indígenas nas competências do Congresso Nacional. A proposta vem causando fortes protestos por parte dos indígenas, uma vez que, na prática, esta emenda pode inviabilizar completamente todos processos de demarcação no Brasil.
Grandes programas de cooperação intergovernamental na América do Sul, tais como a Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana – IIRSA e União de Nações Sul-Americanas – UNASUL  prevêem uma série de megaprojetos que causarão grandes impactos sobre as terras indígenas.  Estes programas precisam ser questionados pela sociedade civil, uma vez que foram elaborados sem sua participação e principalmente sem participação dos povos indígenas e comunidades locais afetados.
Levando em conta o contexto histórico colonial e a  orientação capitalista-assimilacionista que domina a atual politica governamental para os índios, a regulamentação da OIT 169 pelo governo se mostra como uma faca de dois gumes. Se ela vai de fato contribuir com a autodeterminação e garantia de direitos dos povos indígenas e comunidades locais vai depender da evolução da situação politica. Neste sentido, as propostas das organizações da sociedade civil para orientar a regulamentação precisam ser acompanhados pelo fortalecimento do movimento indígena e por ativos protestos contra o avanço dos megaprojetos e a política neoliberal dos governos.

DIVULGAÇÂO: Documento de Reivindicação dos povos Indígenas Acre, Sul do Amazonas

Ao Governo Brasileiro
Ao Ministro da Justiça
À Fundação Nacional do Índio
Ao Ministério Público Federal
Ao Governo do Estado do Acre
Às entidades de apoio à causa indígena

Nós, indígenas dos povos Jaminawa, Huni Kui, Nawa, Apolima-Arara, Ashaninka, Apurinã, Jamamadi e Manchineri.
Reunidos em Rio Branco, Estado do Acre, nos dias 16, 17, 18 3 19 de abril de 2012, viemos publicamente nos manifestar a respeito dos problemas referentes à regularização de terras, educação, saúde, produção e cultura que estamos enfrentando em nossas comunidades e exigir que as autoridades tomem providências imediatamente.

Terra:
Temos ainda 21 terras a serem demarcadas, conforme a lista, e nenhuma delas está com o processo em andamento, ao contrário, todos os processos de demarcação de terras indígenas estão paralisados desde 2000 e a Funai – Fundação Nacional do Índio, se quer entra em contato conosco para nos informar o que realmente está acontecendo.
Cansamos de encaminhar documentos sem obtermos nenhuma resposta. Somos sempre humilhados e desrespeitados em nossos direitos, especialmente o direito ao nosso território que garante a CONSTITUIÇÃO FEDERAL Art.231, roubado ao longo dos anos e o pouco que nos resta está invadido por madeireiros, fazendeiros, caçadores e empresas que nos roubam e destroem nossa terra sagrada. Não bastasse isso, ainda querem que aceitemos modalidades de Programas Ambientais que afetam diretamente nosso povo, sem mesmo demarcarem todas nossas terras e sem que saibamos pelo menos o que isso significa para nós.
Por isso, exigimos a presença de representantes da FUNAI/DF/DPT- CGID (Coordenação Geral e Coordenação de identificação Delimitação) para juntos detalharmos as ações dos processos demarcatório dos territórios indígenas.
Exigimos a imediata retomada do processo de demarcação de todas as terras Indígenas do Acre e Sul do Amazonas, revisão de limites daquelas que foram demarcadas deixando parte do território de fora e a retirada de todos os invasores.
Exigimos que seja retomado o processo da Terra do povo Nawa que foi ajuizado e que a FUNAI assuma novamente o processo de demarcação.
Exigimos que a criação dos GT’s que estar previstas a ser constituídas para dar procedimento de demarcação seja definidas com datas as suas atividades em nossas terras.
Exigimos que a FUNAI tomes as providencias imediatas, para com os Jaminawa da Terra Indígena São Paulino
Exigimos ainda que as autoridades, especialmente a Polícia federal e o Ministério Público apurem  as ameaças de morte contra nossas lideranças e nosso povo, como é o caso do Sr. João Pedro Jaminawa, Francisco Jaminawa.
Exigimos que o Ministério Público Federal, acompanhe diretamente os povos indígenas nos encaminhamentos do processo de demarcação do nosso território de acordo com a Constituição federal Art. 232.
Exigimos que a FUNAI, articule com uma data definida, uma audiência publico Nacional no Estado do Acre, com os povos indígenas e a Presidência da FUNAI. CMBIO, INCRA, IBAMA, MPF. Lideres dos assentamentos, Reservas Extrativistas, Parques e Sindicatos rurais, para alem de discutirmos soluções das terras, discutir os grandes projetos a serem implantados no estado.

Terras Indígenas a serem regularizadas:

Terra Povos Município Situação
Curralinho Kaxinawa Feijó Sem providencias
Jaminawa do Guajará Jaminawa Sena Madureira A identificar
Jaminawa do Rio Caeté Jaminawa Sena Madureira A identificar
Nawa Nawa Mâncio lima A identificar
Seringal Guanabára Manchineri Assis Brasil A identificar
Riozinho do Alto Envira (antigo nome Xinane) Isolados Feijó Identificada
Kontanawa Kontanawa Marechal Thaumaturgo Sem providencias
Chandless Isolados Manoel Urbano e Santa Rosa Sem providencias
Estirão Jaminawa e Kulina Santa Rosa Sem providencias
Igarapé Taboca Alto Tarauacá Isolados Tarauacá A identificar
Igarapé Tapada Isolados Mâncio lima Sem providencias
Iquirema Jamamadi Boca do Acre A identificar
Jaminawa colocação São Paulinho Jaminawa Boca do Acre A identificar
Kaiapucá Jaminawa Boca do Acre A identificar
Val Parais Apurinã Boca do Acre Sem providencias
Monte Apurinã Boca do Acre Sem providencias
Goiaba Jamamadi Boca do Acre Sem providencias
Primavera Apurinã Boca do Acre Sem providencias
Lurdes Jamamadi Boca do Acre Sem providencias
Cajueiro Apurinã Boca do Acre Sem providencias
Maracajú Jamamadi e Apurinã Boca do Acre A identificar

Saúde:
Conforme deliberação tomada no Fórum de saúde indígena, exigimos:
A imediata implementação das propostas do consolidado do I Fórum de Saúde Indígena do Acre, sul do Amazonas e Noroeste de Rondônia pela SESAI e outros órgão da saúde e, que a FUNAI acompanhe diretamente esta implementação, entre elas as com prioridades:
A imediata implementações das ações de saneamento básico como ação preventiva às doenças curáveis, que vitimam todos os dias nossos parentes;
A implementação imediata das ações de segurança alimentar para melhoria da qualidade de vida nas comunidades;
Que sejam cumpridas as ações de infraestrutura física dos polos, nas aldeias e nas unidades de saúde;
Que os gestores respeitem as deliberações dos conselhos e efetivem a gestão participativa e não autoritária, que possibilite a criação de politicas de prevenção de doenças e promoção de saúde indígena;
Que sejam respeitadas as necessidades diferenciadas de assistência à saúde indígena
. Combatendo as desigualdades, assim como a desnutrição, pancreatite, hepatite e tuberculose, coqueluche, várias espécies de rota vírus bem como o vírus H1N1 que são doenças que vieram de fora.

Educação:
Consideramos que nossas escolas se encontram praticamente em estado de abandono, exigimos a recuperação dos prédios já construídos e a construção de todas as escolas, independentemente da terra estar demarcada.
Exigimos ainda a elaboração de um modelo de formação que realmente considere nossas culturas e respeite nossa forma de vida;
Que aqueles que desejarem entrar nas universidades, especialmente na UFAC, tenham um processo de seleção que considere nossas especifidades;

GOV. ESTADO
Exigimos a criação da Secretaria dos Povos indígenas, com autonomia e a destituição da Assessoria, bem como a resposta dos documentos encaminhados pelos indígenas ao estado.
Exigimos que seja organizado uma audiência pública, para tratar assunto relacionadas aos programas, projetos do Estado do Acre que os povos indígenas estão inseridos, como PROACRE, PLANO DE MITIGAÇÂO, SISA/Subprograma indígena entre outros…

Outros
Que seja tomada providência nos documentos em anexo, vindas das comunidades.
Que seja respeitado nosso documento, nossas reivindicações, assim como nos os respeitamos, afim de evitar maiores transtornos em nossas comunidades.

Rio Branco – Ac, 19 de Abril de 2012

Povos indígenas acampados na Sede da FUNAI/Acre



  • Veja também a entrevista com Ninawa Hunicuí – Líder do Movimento Indígena em 19/04/2012:

Serviços ambientais em terras indígenas do Acre – Aprofundando a discussão

Nas últimas semanas, as discussões acerca de REDD (Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação) e Serviços Ambientais no Acre ganharam novos impulsos. Uma oficina para iniciar uma discussão sobre estes assuntos com os povos indígenas do estado, foi realizada em Rio Branco no mês passado pelo Instituto de Mudanças Climáticas IMC/AC, a Comissão Pró Índio CPI/AC e a organização estadunidense Forest Trends.  A transparência deste processo e a  imparcialidade dos organizadores em respeito à estes assuntos controversos foram questionadas entre outros, na minha coluna Alerta Socioambiental. O Conselho Indigenista Missionário – CIMI, Regional Amazônia Ocidental, enviou uma declaração para o Ministério Público Federal, onde, entre outros, acusa os organizadores de querer “convencer os indígenas a aderirem aos contratos de venda de carbono e outros, os PSA” (Pagamentos por Serviços Ambientais).

Oficina de cinco dias reuniu 40 representantes das 35 terras indígenas do Acre (Foto: Assessoria IMC, Fonte: http://pagina20.uol.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=27412&Itemid=42 )

Os organizadores do evento reagiram a estes questionamentos e acusações com uma declaração conjunta intitulada “Nota de esclarecimento conjunta para repor a verdade para a sociedade acreana”, onde rechaçam as acusações e asseguram que suas atividades estariam em conformidade com a lei e com  os princípios de acordos internacionais que tratam de direitos dos povos das florestas, tais como a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas da ONU,  e a Convenção 169 da organização internacional de Trabalho – OIT. A CPI divulgou ainda uma segunda nota de esclarecimento recapitulando sua antiga relação de parceria com os indígenas do Acre e justificando sua atuação juntos com eles, relacionada aos assuntos REDD e PSA. O especialista da Forest Trends que participou da oficina inseriu na referida coluna, em reação ás críticas nela formuladas e à declaração do CIMI nela reproduzida, vários comentários, e sua instituição ainda questionou afirmações da organização internacional World Rainforest Movement sobre a falta de participação na elaboração da lei que regulamenta o Sistema Estadual de Incentivo a Serviços Ambientais no Acre.
Portanto, o documento que mais merece atenção entre as respostas à ação do CIMI, é uma carta, divulgada pela CPI, que consta as assinaturas das principais lideranças indígenas participantes da oficina. Na carta, os indígenas, após relembrar das lutas e conquistas dos seus povos, rejeitam qualquer tentativa de colocá-los sob tutela e afirmam sua capacidade de interagir com órgãos de governo e da sociedade civil.
Certamente, quem conhece o movimento indígena do Acre, não poderia duvidar desta capacidade. Entre as lideranças indígenas acrianas hoje encontram-se vários acadêmicos, coordenadores de organizações, pessoas que falam diversos idiomas, participaram ativamente em conferencias internacionais sobre meio ambiente ou direitos indígenas. Também tem que admitir que os trabalhos de educação, capacitação e formação que a CPI promoveu durante as últimas décadas certamente contribuíram com este alto nível intelectual e organizacional dos indígenas no Estado do Acre.
Entretanto, relendo a declaração do CIMI, entendemos que sua intenção não foi de questionar a capacidade dos indígenas. Entendemos que a acusação direciona-se exclusivamente aos organizadores, que teriam o dever de promover um “intercâmbio de informações pertinentes e imparciais” como estabelece o manual da FUNAI  para oficinas sobre mudanças climáticas, serviços ambientais e REDD.

Percebendo as assimetrias
Este manual, intitulado Diálogos Interculturais – Povos Indígenas , Mudanças climáticas e REDD, aponta, na parte da apresentação, para a necessidade de haver processos de formação que sejam participativos e simétricos, e ressalta que ainda falta uma reflexão aprofundada sobre os aspectos críticos do mecanismo REDD.
Entretanto, os aspectos mais críticos do comércio de serviços ambientais – como por exemplo os questionamentos ético-ambientais e questões da desterritorialização (que vamos tratar mais adiante neste artigo) – ao longo do manual sequer são mencionados.  Talvez a ausência destes aspectos se explica pela composição do grupo que definiu os subsídios para elaboração do manual. Este Grupo de Trabalho REDD e Terras Indígenas é composto, alem da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia – COIAB, por oito instituições não indígenas, entre eles a Agência de Cooperação Técnica Alemã – GTZ, Conservação Internacional – CI, World Wildlife Fund – WWF, The Nature Conservancy – TNC. As três últimas instituições citadas, também conhecidos como BINGOs são os principais proponentes dos programas PSA e REDD e frequentemente acusados de promover os interesses comerciais em detrimento de direitos indígenas.
Reencontramos neste arranjo o mesmo cenário que também predomina nas conferências internacionais da ONU sobre clima e biodiversidade, onde os povos indígenas não tem direito a voto e praticamente nenhuma participação nos processos decisivos. Os programas que resultam destas conferências são desenhados para atender aos interesses comerciais que se articulam pelas BINGOs e dirigem os governos.
Observando esta assimetria entre os atores envolvidos e a tendência de ofuscação ou distorção de informações, desde o desenho dos programas PSA e REDD no âmbito da ONU, até as orientações que a FUNAI fornece para nortear as discussões com os indígenas em nível local, temos razão para acreditar que este cenário tende a se reproduzir nas oficinas de capacitação que o governo do Acre promove.
Na sua nota, os organizadores afirmam que as decisões referentes às capacitações são tomadas por um Grupo de Trabalho Interinstitucional, vinculado à Comissão Estadual de Acompanhamento e Validação de Serviços Ambientais. Suscita a pergunta: Qual é efetivamente o grau de participação dos indígenas na idealização destes eventos e na escolha das fontes de informação que as subsidiam?

Ouvindo os questionamentos

Esta charge ilustra algumas das criticas que vem sendo articuladas com veemência por grupos da sociedade civil no mundo inteiro: “Protegem os direitos dos povos indígenas e as florestas do REDD!” … “Esta floresta é disponível para aluguel como sumidouro de carbono. Entrada proibida!” … “REDD – uma falsa solução para a mudança climática” (Fonte: http://www.celsias.com/article/seeing-redd-could-there-be-more-complicated-way-sa/ )

A discussão sobre REDD e PSA não é nova no Acre e na região amazônica. Houve nos últimos tempos uma serie de manifestações críticas de indígenas e não indígenas sobre estes mecanismos aqui, entre eles:a Carta do Acre, a Carta do I Seminário de Formação – “Projetos Desenvolvimentistas: impactos na região do Juruá” as preocupações do Movimento Indígena de Rondônia que tem com os projetos REDD em seu estado, Os questionamentos que Movimento Anticapitalista Amazônico (MACA) e o que o ex-companheiro de Chico Mendes, Osmarino Amâncio vem articulando em relação à REDD e PSA , o posicionamento do próprio CIMI, organização que vem desde muito tempo apoiando os povos indígenas amazônicos nas suas lutas. E finalmente, os estudos críticos sobre a economia verde elaborados pelos integrantes do Núcleo de Pesquisa Estado, Sociedade e Desenvolvimento na Amazônia Ocidental (NUPESDAO) da Universidade Federal do Acre.
Caso que todas estas críticas e argumentações articuladas por segmentos da sociedade civil acriana e amazônica não vem sendo discutidas nas capacitações promovidos pelo governo, temos que perguntar : A decisão de ignorá-las partiu dos indígenas ou dos organizadores não indígenas?
Seria importante que os organizadores destes eventos ainda repensem estes pontos e acolham as  críticas acerca de REDD e serviços ambientais que vem ocorrendo no mundo inteiro e também no Acre. Notas de esclarecimento não serão suficientes para restaurar a credibilidade do seu papel como parceiros dos povos indígenas na sua busca por autonomia e vida digna. Será necessário uma reflexão aprofundada, crítica e aberta juntos com os indígenas.
A nota técnica que instaura a Comissão Estadual supracitada define como primeira atribuição da comissão: “Garantir a transparência e o controle social dos programas, subprogramas, planos de ação e projetos especiais do SISA”. Se esta intenção do governo for sincera, porque então estas críticas e argumentações não são ouvidas e discutidas abertamente com a sociedade acriana e principalmente com os povos da floresta?

Formulando perguntas
Nas noticias do governo sobre o evento, destaca-se o depoimento do professor indígena Joaquim Maná Kaxinawá, da Terra Indígena Kaxinawá Praia do Carapanã, doutorando em lingüística pela Universidade de Brasília – UnB:  “ainda não está claro o que vai ser vendido, como vai ser vendido, quem vai acompanhar, quem vai negociar, o que é mesmo essa venda, como vai ser feita”. Com muita franqueza o professor Maná aponta as grandes incertezas e dúvidas que ainda nem os especialistas em REDD e PSA podem esclarecer.
Dando continuidade às perguntas do professor Maná podemos ainda  interrogar:  para quem e porque o serviço vai ser vendido? Qual o interesse do comprador? O que ele vai ganhar em troca do seu pagamento? Mesmo com todas as incertezas que envolvem estes assuntos sabemos sem dúvida: empresas não atuam sem lucrar, sem ganhar algo, seja o direito de poluir ou degradar, direito de acessar recursos ou informação. As corporações sempre procuram maximizar seus direitos de acesso e de propriedade intelectual. O sistema capitalista procura constantemente aumentar seu controle sobre recursos, territórios e o comportamento humano.

Este Diploma do Fundo Amazõnia, emitido pelo BNDES atesta que a Petrobras, através de uma doação, teria contribuída com a redução de emissões equivalente a 129.164 toneladas de carbono em 2006. Quais direitos de poluição ou degradação ambiental este documento pode ceder para a Petrobras? Certificados deste tipo foram tambem emitidos para os governos da Noruega e alemanha. (Fonte: http://www.fundoamazonia.gov.br/FundoAmazonia/fam/site_pt/Esquerdo/Doacoes/ )

Compreendendo o nexo entre compensação e desterritorialização
O crescimento da economia hoje se baseia em estratégias de desterritorialização. O que é isso? A desterritorialização do capital, de forma sucinta, quer dizer que o capital se tornou flexível e grandes quantidades de dinheiro podem entrar e sair rapidamente entre diferentes mercados e através de fronteiras nacionais, causando o enriquecimento de um pequeno grupo de pessoas e a falência de grandes grupos ou até países. A desterritorialização da mão de obra quer dizer que empresas multinacionais podem mudar seus sítios de produção para os lugares onde esta está mais barata, e assim evitar custos em detrimento dos direitos dos trabalhadores.
O comércio de serviços ambientais faz parte desta lógica de desterritorialização, uma vez que ele faz tanto os serviços, quanto os prejuízos ambientais, intercambiáveis. Uma comunidade indígena que vende um serviço ambiental, pode ter os direitos sobre seu território perfeitamente respeitados e ter o usufruto exclusivo sobre seus recursos garantido. Mas através da compra deste serviço em um lugar, a empresa compradora pode ganhar o direito de degradar este mesmo serviço em outro lugar, longe do território desta comunidade. E aí reside o engano. A comunidade que aparentemente tem seus direitos territoriais e recursos intocados, pode acreditar que está participando de um negócio limpo, ou até, que sua contribuição para o meio ambiente vem sendo valorizado pela sociedade dominante, enquanto esta contribuição na verdade é aniquilada através da venda compensatória.
Esta desterritorialização dos serviços ambientais permite entre outros maior flexibilidade na implementação de megaprojetos como hidrelétricas ou estradas, uma vez que os prejuízos socioambientais poderão ser compensados com mais facilidade. Assim o comércio de serviços ambientais tende a corromper as relações de solidariedade entre os povos das florestas e com outras comunidades subalternas. Um exemplo desta dessolidarização é a situação de comunidades californianas que são ameaçadas por projetos REDD na província mexicana de Chiapas ou no Acre em consequência de um acordo multilateral entre estes três governos.

Salvaguardas devem prevenir o avanço descontrolado de projetos REDD. Entretanto, não havendo condições de fiscalização, e tendo a procura por parte de poluidores que desejam neutralizar sua pegada ecológica, mesmo projetos duvidosos avançam. Este certificado pode ser adquirido através da internet: “Esse certificado representa a contribuição de Mytreefrog.com em seu nome através da compra de uma compensação de carbono a partir do projeto de desmatamento da Celestial Green na Amazônia.“ (Fonte: http://mytreefrog.com/ )

Analisando as salvaguardas
Após a decisão de incluir as florestas no regime para deter o aquecimento global, começaram a ser discutidos e elaborados no âmbito da ONU, critérios e princípios que devem diminuir as inseguranças e possíveis impactos negativos de programas REDD e PSA para os povos das florestas. Estes critérios e princípios são chamados salvaguardas.
No Brasil foi elaborado e publicado neste contexto no final de 2010, o documento Princípios e Critérios Socioambientais de REDD+ para o Desenvolvimento  e Implementação de Programas e Projetos na Amazônia Brasileira. As salvaguardas estabelecidas neste documento tratam de aspectos legais, questões da distribuição dos benefícios, conservação e recuperação ambiental, alinhamento  com  as políticas e diretrizes nacionais, regionais, e locais, etc. Nota-se que as diretrizes são formuladas de forma muito genérica, e em grande parte recorrendo e reforçando apenas diretrizes legais que obviamente qualquer projeto deve obedecer. Lemos, por exemplo, neste documento: “As ações de REDD+ devem respeitar a legislação ambiental brasileira”, “Os  benefícios  advindos  das  ações  de  REDD+  devem  ser  acessados   de  forma  justa transparente e  equitativa…”,  “As ações de REDD+ devem atender a políticas estaduais e nacionais de REDD+”. As questões que se colocam em relação da comercialização dos certificados sequer são mencionadas. A possibilidade de haver prejuízos externalizados pelo projeto através da venda compensatória de créditos obviamente não foi tematizada nas discussões que resultaram neste documento. Parece como se fosse pressuposto neste documento, que uma comunidade que realiza um projeto REDD teria interesse apenas em salvaguardar seus próprios direitos, recursos e benefícios, mas que não importaria, quais consequências esta compensação pode causar para outras comunidades e ecossistemas, e quais “pegadas ecológicas” ela possivelmente ajuda a apagar em outro lugar.
Também aqui, a ausência de uma reflexão crítica pode ser explicada pela composição do grupo que conduziu as discussões e produziu o documento. O grupo inclui as poucas representações oficialmente reconhecidas de povos indígenas, tais como COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), e de comunidades locais como GTA (Grupo de Trabalho Amazônico), e CNS (Conselho Nacional das Populações Extrativistas).  Entretanto, a  maioria das organizações que compõem este “Grupo de organizações da sociedade civil brasileira” são empresas e ONGs de consultoria, muitos conhecidos como sendo os principais defensores da economia verde. Entre eles encontramos BINGOs como WWF e TNC. Contribuiu com a elaboração por exemplo a empresa Biofílica Investimentos Ambientais. No site desta empresa podemos conferir que ela trabalha com prospecção e comercialização de eco-creditos, e que entre os membros da sua diretoria encontram-se banqueiros internacionais e outras pessoas que preenchem cargos de alto nível no mundo de negócios, como por exemplo vice-presidente da Câmera de Comercio dos Estados Unidos. Questiona-se se este tipo de empreendimento é indicado para contribuir com salvaguardas para os povos da floresta amazônica e pergunta-se porque o crasso conflito de interesses no grupo não foi tematizado.

Tempo de direitos ou tempo de hegemonia?
Podemos constatar uma grande assimetria na discussão sobre REDD e Serviços Ambientais. Claramente o interesse comercial predomina em todos os níveis. Questionamentos ético-ambientais como os acima mencionados vem sistematicamente sendo evitados, ignorados ou desqualificados nas discussões promovidas pelos governos e pelas ONGs que promovem tais programas. Em um primeiro momento colocam-se questões puramente técnicas na pauta da discussão, não deixando espaço para uma reflexão aprofundada. Num segundo momento – caso em que o questionamento é levantado – eles são frequentemente taxados como exageradamente ideológicos ou até paranóicos. Desta forma as comunidades e a sociedade em geral dificilmente chegam a conhecer o outro lado da moeda nesta discussão.
O que em tempos anteriores se manifestou em atos de direta opressão pelos colonizadores e tutelagem pelo estado, hoje – nos chamados “tempos de direitos” – muitas vezes age através de complexos mecanismos de manipulação e hegemonia. Estes mecanismos são difíceis de enxergar, tanto para indígenas, quanto não indígenas. Principalmente aqueles que se deixam instrumentalizar por este sistema se tornam cegos em relação a ele.
Entendemos que serão realizadas mais oficinas sobre serviços ambientais nas aldeias indígenas no Acre no futuro próximo. Esperamos que a denúncia no MPF contribua com uma discussão mais aberta. Sobretudo confiamos no discernimento das lideranças indígenas, na sua iniciativa própria para idealizar estas oficinas, na consciência da responsabilidade que eles têm em providenciar informações equilibradas para seus povos e comunidades, possibilitando que estes possam conhecer também o outro lado da moeda.

Algumas lições do Rio Acre: Imprevisibilidade, vulnerabilidade e o raciocínio sistêmico

A enchente do Rio Acre nos alerta sobre a crescente vulnerabilidade de aglomerações urbanas. O aumento de apenas alguns centímetros no nível da água causou o alargamento da catástrofe para milhares de lares.  Sendo dependentes de fornecimento de energia e de água, escoamento de esgoto, retirada de lixo, meios de comunicação, ou seja, vários sistemas interligados de fluxos de bens e serviços, estes lares, de um momento para o outro, se tornam inabitáveis e milhares de pessoas precisam ser evacuadas.  Alguns conceitos da teoria do caos podem nos ajudar a compreender melhor a imprevisibilidade de eventos extremos em áreas tão distintas como o clima ou o mercado financeiro, assim como a elevada vulnerabilidade das sociedades modernas diante destes eventos.
O meteorólogo estadunidense Edward Lorenz cunhou na década de 1970 a expressão “efeito borboleta” para demonstrar, através de um exemplo, a grande sensibilidade de sistemas complexos e dinâmicos como o clima. O bater de asas de uma borboleta no Brasil poderia em teoria desencadear uma serie de reações que resultaria em um furacão em Texas-EUA. Lorenz mostrou que condições iniciais ligeiramente alteradas podem causar efeitos completamente imprevisíveis. Esta imprevisibilidade se da por causa de efeitos de retroalimentação (feedback). Retroalimentação positiva é um processo que envolve uma relação cíclica entre causa e efeito: evento A estimula evento B e evento B estimula (realimenta) evento A, aumentando cada vez mais o processo. As realimentações positivas podem resultar em eventos extremos, catastróficos ou até desestabilizar o sistema inteiro.

A imagem acima mostra um ciclo de retroalimentação positiva: O efeito da invasão causada pelas gramas de tipo africano na floresta amazônica. Este tipo de grama foi importada para ser utilizada como alimento de gado. Elas têm como característica uma grande suscetibilidade ao fogo, e também a capacidade de ocupar rapidamente os espaços antes ocupados pelas árvores nativas destruídas pelo fogo. (Fonte: Manuel Folledo, “Raciocínio Sistêmico: uma boa forma de se pensar o meio ambiente”. http://www.scielo.br/ )

Entendemos que efeitos deste tipo contribuem para o acelerado processo de mudança climática: o aquecimento global causa o derretimento do gelo no polo norte e de solos até então permanentemente congelados. Estes efeitos por sua vez  – a superfície reduzida de gelo refletindo menos raios solares e os solos descongelados liberando gases de efeito estufa ao derreter – retro-alimentam o aquecimento global.  Com o avanço destas mudanças sistêmicas, os ciclos naturais que até então asseguraram  a regularidade das chuvas, secas, calor e friagens são afetados, e eventos extremos, como furacões, secas prolongadas ou inundações vem aumentando.
A crise econômica mundial pode ser entendida de forma similar. Através da globalização econômica, da flexibilização do capital, da criação de mercados especulativos em cima de mercados de commodities, a especulação acelerada nas bolsas por meio de sistemas computadorizados, o sistema da economia mundial se tornou cada vez mais complexo e dinâmico, favorecendo processos de realimentação positiva.  Hoje, a grande maioria da humanidade encontra-se entregue a um sistema econômico imprevisível na beira co caos, atropelado por eventos extremos, onde grandes quantidades de capital são acumulados rapidamente por um pequeno grupo, enquanto outros grupos ou países inteiros entram de repente em falência.

Esta imagem ilustra a realimentação positiva que causou a bolha no mercado imobiliário nos Estados Unidos que estourou em 2007: A) Facilidade de Financiamento → B) Aumento da procura por casas → C) Aumento dos preços das casas → D) Diminuição das taxas de juros → E) Diminuição do risco percebido no empréstimo → F) Mais pessoas dispostas a emprestar → A) Faclilidade de Financiamento →... (Fonte: http://moderatepoli.blogspot.com/2012/02/spending-and-danger-in-positive.html )

A vulnerabilidade de uma comunidade cresce na medida em que ela se torna dependente do sistema financeiro, dos grandes sistemas infraestruturais e das indústrias multinacionais. As enormes monoculturas que hoje alimentam as comunidades urbanas podem ser rapidamente destruídas por tempestades, pragas, ou acidentes genéticos. A produção da agricultura familiar por sua vez, por causa da sua distribuição geográfica e diversidade genética, torna-se se mais seguro e sustentável.  Resumindo, muitos sistemas pequenos com alto grau de autonomia são em soma mais estáveis do que  um grande sistema de interdependências, diversidade de espécies e de tecnologias é mais segura do que uniformidade.
Como pode então se diminuir a vulnerabilidade das cidades? O planejamento urbano, alem do melhoramento da infraestrutura existente nas cidades, deve buscar evitar o crescimento das mesmas.
É preciso fortalecer o conhecimento e as capacidades das pessoas que ainda conseguem viver fora da cidade e independente dos grandes sistemas infraestruturais e financeiros, sendo que estes sistemas vem se tornando cada vez mais instáveis.

Urbanização no Brasil e vulnerabilidade: “Em nosso país, 70 anos foram suficientes para alterar os índices de população rural e os de população urbana. Esse tempo é muito curto e um rápido crescimento urbano não ocorre sem o surgimento de graves problemas.” Fonte: Ângelo Tiago de Miranda http://educacao.uol.com.br/geografia/urbanizacao-do-brasil-consequencias-e-caracteristicas-das-cidades.jhtm

A politica do governo, seguindo o raciocínio sistêmico, deve buscar contribuir com a autonomia e autossustentabilidade das comunidades rurais em vez de torná-las dependentes de pagamentos mensais como Bolsa Família, Bolsa Verde ou Fogo Zero, ou ainda entregar elas às incertezas do mercado de serviços ambientais, tais como carbono florestal. A capacidade destas comunidades de  trabalhar com a terra, assim como seu conhecimento tradicional associado à diversidade agrícola e medicinal guardada por eles pode futuramente ser de grande importância para toda humanidade.


REDD: Avançando apesar de crescentes contradições

Durante o ano de 2011, a discussão sobre valoração econômica de serviços ambientais – especificamente o mecanismo REDD – se intensificou. Os países não realmente se comprometeram com a adoção de um regime vinculante para redução de emissões no âmbito da ONU Convenção Sobre o Clima e, em consequência, o mercado de créditos de carbono sofreu fortes quedas.  Mesmo assim, a  implementação dos programas REDD foi amplamente promovida por governos, ONGs e empresas no mundo inteiro e também no Acre.
Ao mesmo tempo foram produzidas no ano passado diversas pesquisas sobre possíveis prejuízos e benefícios destes programas. Para entender melhor as contradições conceituais que residem nos projetos da comercialização de serviços ambientais, tais como sequestro de carbono, vale a pena – antes de abordar a situação no Acre – recorrer  a dois destes estudos cujos resultados vem provocando intensos debates.

As análises dos “custos de oportunidade” da McKinsey
O primeiro estudo foi elaborado por uma grande empresa de consultoria, chamada McKinsey & Cia.. Ele se insere no contexto de um programa de estudos do programa do Banco Mundial sobre crescimento econômico com baixas emissões de carbono em diversos países.
Um conceito central nas analises da McKinsey é o “custo de oportunidade”.  O que seria isso? Na Wikipedia  encontramos a seguinte definição deste termo econômico: “o custo de algo em termos de uma oportunidade renunciada“, e ainda um exemplo: “Se uma cidade decide construir um hospital num terreno vazio de propriedade estatal ou pública, o custo de oportunidade é representado pela renúncia a erguer outras construções naquele terreno e com o capital investido. Rejeita-se por exemplo a possibilidade de construir um centro desportivo, ou um estacionamento, ou ainda a venda do terreno para amortizar parte das dívidas da cidade, e assim por diante.”
Esta mesma logica também é fundamental para os mecanismos de compensação de emissões e para o comercio de carbono. Sabemos que cerca de 80 por cento das emissões de gases de efeito estufa (GEE) são causadas pelas indústrias, principalmente através da queima de combustíveis. Apenas cerca de 20 por cento das emissões provem de desflorestamento ou degradação de florestas. Uma pessoa que não tem costume de pensar em termos econômicos provavelmente pensaria que os esforços para reduzir estas emissões devem se concentrar primeiramente nas suas principais causas, ou seja em reduzir as emissões das industrias. Mas na logica dos custos de oportunidade, isso não funciona bem assim. O custo das indústrias, representado pela renúncia a continuar ou aumentar a produção, é muito alto. No caso das florestas, as oportunidades que se perde ao renunciar de desmatá-las ou degradá-las em comparação são baixas. Em palavras mais simples: Reduzir emissões é mais barato nas florestas do que nas indústrias.
A McKinsey aplica então o raciocino do custo de oportunidade detalhadamente para diferentes possibilidades de redução de emissão e coloca estas “oportunidades de redução de GEE” num quadro comparativo. O Resultado destas análises são “curvas de custos”, que servem para que um governo possa basear suas decisões, de onde ele pode conseguir a maior redução de emissões com o menor custo de oportunidade.

McKinsey: Curva de custo para redução de emissões de GEE na Indonésia
Na curva de custo para REDD na Indonesia, a McKinsey compara várias atividades que podem contribuir com a Reduções de Emissão por Desmatamento e da Degradação Florestal. A Empresa avalia o custo de oportunidade de monoculturas de palmeira de óleo com 29 dólares por tonelada de gás carbônico não emitido. (última coluna a direita “Intensive plantation – palm oil”) O custo de oportunidade de agricultura familiar é de apenas um dólar por tonelada. (primeira coluna a esquerda “small holder agriculture) Em outras palavras: Opção a) Se a Indonésia – para reduzir emissões – renuncia de fazer e monoculturas de palmeira de óleo em áreas de floresta, ela perde 29 dólares por tonelada de gás carbônico não emitido. Opção b) Se a Indonésia – para reduzir emissões – reduz a agricultura familiar em áreas de floresta, ela perde apenas um dólar por tonelada de gás carbônico não emitido. Seguindo esta lógica, evidentemente o governo será inclinado a diminuir suas emissões primeiramente através da redução da agricultura familiar e, na medida do possível, não renunciar das lucrativas monoculturas

Os cálculos da empresa indicam que os custos de oportunidade são bastante altos na extração industrial de madeira e monoculturas de palma. No caso da agricultura de subsistência, os custos de oportunidade seriam bem menores. Em outras palavras, os governos deveriam – mesmo em detrimento das florestas – não renunciar das lucrativas atividades da industria madereira e dos biocombustiveis, enquanto as atividades de subsitencia dos moradores das florestas devem abrir caminho para os programas REDD.
O estudo da McKinsey foi duramente criticado, entre outros pela organizacao Greenpeace , por ignorar importantes fatores socioambientais, por simplificar a problematica e por reduzi-la de forma enganosa a uma logica puramente mercantilista. A McKinsey admitiu que suas recomendações poderiam ter consequências socioambientais adversas, mas insiste que seus cálculos são corretos. Apesar das fortes criticas, os estudos da McKinsey continuam sendo amplamente reconhecidos. Vários países ricos em florestas, como Papua Nova Guiné, Guyana, Indonésia e Republica Democrática do Congo vem implementando seus programas REDD em conformidade com as recomendacoes da empresa. Para o governo brasileiro, a McKinsey elaborou o estudo “Caminhos para uma economia de baixo carbono no Brasil
Estudos como este reproduzem a logica que vem dominando toda discussão sobre a crise climática, invertendo o ônus de consertar o clima da terra, atribuindo-o àqueles que menos oferecem oportunidades de crescimento para o sistema da economia global – os povos da floresta – e  ausentando os poluidores da sua responsabilidade, permitindo que façam “business as usual” (continuar  negocio como sempre).

The Munden Project: A inviabilidade do Comercio de Carbono
A segunda pesquisa – bem diferente da de McKinsey – é entitulada “REDD e carbono de Florestas: Crítica baseada no mercado e Recomendações”.  Ela foi financiada pela fundação Ford e conduzida por uma empresa chamado The Munden Project. Este estudo, que usa uma abordagem puramente mercadológica, chega a conclusões surpreendentes referente a viabilidade do comercio de carbono como mecanismo de financiamento para REDD.
Os pesquisadores tomam como ponto de partida a descrição da objetividade de REDD pela ONU: “… inclinar o equilíbrio econômico em favor da gestão sustentável das florestas de modo que seus formidáveis bens e serviços econômicos, ambientais e sociais beneficiem países, comunidades e usuários da floresta, enquanto ainda contribuem para alcançar reduções significativas de emissões de gases de efeito estufa (GEE)”
Eles perguntam então, se a atual concepção do comércio de carbono de florestas poderia responder a esta demanda. Leva-se em conta que o mercado primário (a venda do certificado de carbono pelos donos da área florestal) não seria suficiente para captar os recursos necessários. Precisa-se ainda gerar lucros através de um mercado secundário, um mercado  de derivativos (Instrumentos financeiros especulativos cujo preço deriva de outro ativo). A hipótese na qual REDD poderia ser financiado através de um mercado de carbono florestal seria então: (a) Comodities + (b) Derivativos = (c) Resultados .
Mais detalhado:
(a) Comunidades ou governos avaliam o valor de florestas em termos de carbono quantificando-as assim como commodities.
(b) Os resultantes créditos de carbono são comercializados no mercado de derivativos para agregar capital privado.
(c) O fluxo resultante de investimentos vai providenciar o incentivo para preservar as florestas e viabilizar desenvolvimento.
Os pesquisadores da The Munden Project chegam à conclusão que o comercio de carbono, da forma como é atualmente construído não será capaz de produzir estes resultados.
A inviabilidade desta forma de financiamento para REDD se da por várias imperfeições nos mecanismos de comercialização tanto no mercado primário, quanto secundário. Uma delas é o fato que a venda de commodities  geralmente desfavorece os produtores (neste caso as comunidades).

Uma das dificuldades apontadas por The Munden Project é que – da forma como o mercado é organizado atualmente – haverá uma forte tendencia de concentração dos lucros na mão de intermediários: De um investimento estimado de 20 bilhões de dólares, 12,4 bilhões seriam absorvidos por intermediários.

Pode se prever a presença de muitos emissores de créditos de carbono e apenas alguns poucos intermediários.
Outra dificuldade é que os ativos são mal definidos. O processo no qual florestas gerariam ativos de carbono é mal descrito e cientificamente questionável. Este fato dificulta ou impossibilita o estabelecimento de um mercado de derivativos.
The Munden Project projeta vários cenários futuros, em todos quais o financiamento através do comercio de créditos de carbono se mostra impraticável para REDD. Há, entre outros, a possibilidade de se criar uma bolha especulativa neste mercado. O estouro desta bolha poderia causar danos para os países e as comunidades das florestas, forçando-os a recorrer a venda de madeira para compensar a perda das rendas que haviam sido geradas anteriormente pelos certificados de carbono, e assim, aumentar o desmatamento.

Voltando à prática… E a situação no Acre?
Podemos resumir os resultados dos dois estudos assim: As pesquisas da McKinsey nos demonstram que na economia verde se aplicam os mesmos cálculos da velha “economia marrom”: Na lógica seca do custo-benefício não há espaço para valorização da natureza e do ser humano. O discurso de valorização das culturas tradicionais que acompanha a implementação dos programas de serviços ambientais, nesta perspectiva se revela como demagogia. A análise conduzida pela The Munden Project prova que os atuais planos de financiar a preservação e beneficiar os povos das florestas através do comercio de carbono dificilmente darão certo. Esta ideia praticamente falida vem ainda sendo defendida por aquelas instituições intermediadoras (principalmente, as BINGOs) que tem interesse em se beneficiar através dos recursos disponibilizados para tais programas.
Também no Estado do Acre, os programas de REDD e serviços ambientais vem sendo fortemente promovidos. Estes assuntos ganham ainda mais importância neste estado, uma vez que o governo conseguiu grandes financiamentos para a realização destes programas. No site do Fundo Amazônia, o valor do projeto Valorização do Ativo Ambiental Florestal do Estado do Acre é informado com R$ 66,7 milhões.
Provavelmente, o destaque que o Acre ganhou internacionalmente através do acordo REDD com California-EUA e Chiapas-Mexico em 2010 contribuiu para que o estado pudesse angariar este financiamento. Entretanto a situação mudou em 2011 e o mercado de carbono entrou em crise. A lei que alavancaria a compra de créditos de carbono pelas indústrias californianas está em litigação naquele estado.

As terras indígenas do Acre não se enquadram para REDD: “… as terras indígenas (assim como unidades de conservação e outras áreas florestadas) situadas ao longo do chamado “arco do desmatamento” (entre o leste do Pará, norte do Mato Grosso e centro de Rondônia) têm os seus estoques de carbono florestal e demais serviços ambientais expostos a maiores pressões e, portanto, sujeitos a um maior grau de risco futuro. Assim, pode-se dizer que as terras indígenas situadas em regiões sob maior pressão estarão em melhores condições para o desenvolvimento de projetos de tipo REDD, que têm como foco principal a redução de desmatamento.” (veja na imagem acima, as areas de desmatamento em vermelho e as terras indígenas em verde) Fonte: Desmatamento evitado (REDD) e povos indígenas: experiências, desafios e oportunidades no contexto amazônico http://www.forest-trends.org/documents/files/doc_2692.pdf

Ainda se mostrou que, de forma geral, o mecanismo REDD não se aplica na realidade do Acre: Como foi explicado por um representante da organização norte-americana especializada em REDD Forest Trends ao fazer uma apresentação num grupo de estudos na UFAC,  REDD é concebido para áreas florestais onde se tem previsão de desmatamento ou degradação florestal e onde o mesmo pode ser impedido por um projeto REDD. Mas isso não é o caso na grande maioria das florestas acrianas. O que poderia então ser comercializado a partir do Acre, em vez da redução das emissões, seria a manutenção dos estoques de carbono ou outros serviços ambientais, tais como conservação das águas, da biodiversidade, da beleza cênica etc.. Mas a questão dos mecanismos que devem assegurar estes pagamentos em longo prazo ainda é muito vaga, tecnicamente mal resolvida e moralmente questionável: Na medida em que serviços ambientais serão comercializados, eles recairão na mesma logica antiética da compensação, como é o caso do carbono: Quem vende o serviço em um lugar acaba autorizando o estrago ambiental em outro lugar.
Na semana retrasada houve em Rio Branco um seminário promovido pelo Instituto de Mudanças Climáticas IMC-AC em parceria com a Comissão Pro-Indio CPI/Acre e a supracitada organização Forest Trends. O evento objetivou a discussão de pagamentos para serviços ambientais para os povos indígenas e  reuniu cerca de 40 indígenas e um grupo selecionado de convidados representantes de organizações afins. Logo após o evento, no dia 07 de fevereiro, o governo publicou na internet uma noticia que relatava abertamente em tom eufórico sobre a esperança que o evento havia despertado nos participantes indígenas em poder “participar do milionário mercado internacional de carbono”. A noticia foi retirada do site após poucas horas no mesmo dia, e mais tarde substituída por outra matéria bem menos enfática.
Fatos como este infelizmente reforçam a impressão, de que o governo e os demais proponentes do comercio de serviços ambientais no Acre querem tratar o assunto com os povos indígenas atras de portas fechadas, evitando que os indígenas tenham conhecimento das severas críticas que colocariam em dúvida estes programas. Entretanto, o acesso a estas informações seria necessário para que a decisão dos indígenas – se querem ou não entrar neste comercio – seja baseada num consentimento livre, prévio e informado.

Ps: Venho ainda reproduzir aqui a recente comunicação do CIMI para o Ministério Público Federal:

Ministério Público Federal

Procuradoria da República no Estado do Acre

Exmo. Sr. Dr. Anselmo Henrique Cordeiro Lopes

Procurador da República

Termo de declaração

O Conselho Indigenista Missionário – Cimi, Regional Amazônia Ocidental, com sede na Rua Rio Grande do Sul nº 34, centro, nesta cidade de Rio Branco, Estado do Acre, CNPJ nº 00.479.105/0011-4, por meio de seu representante legal, Sr. Lindomar Dias Padilha, Coordenador Regional, RG nº 07641344-2 IFP RJ, vem a V. Exma. presença prestar o seguinte termo de declaração:

Em 40 anos de atuação junto aos povos e comunidades indígenas, temos assistido, não raras vezes, investidas contra os direitos dos povos indígenas, especialmente contra o usufruto exclusivo, garantidos na nossa carta maior. Entretanto, nos últimos anos uma dessas investidas tem se dado sob pseudo amparo legal e com assessoria de órgãos e entidades que, a nosso ver, estão descumprindo suas funções ao defenderem que os povos indígenas devam participar de contratos de Pagamentos de Serviços Ambientais (PSA), especialmente o REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal). Caso específico do Governo do Estado do Acre, Comissão Pró-Índio do Acre (CPI AC), Forest Trends e Fundação Nacional do Índio (Funai) , principalmente esta última que tem o dever constitucional de defender os interesses dos povos indígenas.

Em outubro de 2011, a toque de caixa e sem nenhuma participação ou consulta popular, o Governo do Acre encaminhou à Assembléia Legislativa um projeto de lei que resultou na aprovação da lei nº 2.308/10 que cria o Sistema Estadual de Incentivos a Serviços Ambientais (SISA), o Programa de Incentivos por Serviços Ambientais (ISA) Carbono e demais Programas de Serviços Ambientais e Produtos Ecossistêmicos do Estado do Acre. Neste ato, os povos indígenas não se fizeram representar tão pouco houve o acompanhamento por parte do órgão indigenista oficial. Consultas foram feitas apenas à CPI/AC pelo fato desta prestar serviços de assessorias ao Governo do Estado do Acre.

A criação desta lei se fazia necessário para respaldar o Governo do Acre em suas negociações com o Estado da Califórnia, Estados Unidos. Tão logo a lei foi aprovada, o Governo do Acre assinou, em novembro de 2011, durante a Conferência sobre o Clima, em Copenhague, um acordo entre o Governo do Estado do Acre, Estado da Califórnia e Chiapas no México, para implementação de Programas para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal, o REDD+. Mais uma vez os direitos dos povos indígenas e comunidades tradicionais não foram considerados e, mais uma vez, o órgão indigenista oficial se omitiu em sair em defesa dos povos indígenas.

De lá para cá, inúmeras reuniões foram feitas à portas fechadas entre Secretarias de Governo do Acre, CPI/AC e outras ONGs afinadas com o programa SISA, ISA, REDD+ e outros. Além dessas reuniões, foram feitas inúmeras conversas com algumas lideranças indígenas num claro esforço de conseguirem convencer os povos e comunidades a aderirem aos programas de pagamentos por serviços ambientais.

Do outro lado, cerca de trinta instituições, ONGs, dentre as quais o Cimi, realizaram de 03 a 07 de outubro uma oficina sobre os Fundos Verdes, REDD e Serviços Ambientais. Ao final publicou-se um documento em forma de carta denominado “Carta do Acre” onde as instituições apontavam para a farsa das propostas de PSA (Pagamento por Serviços Ambientais), especialmente o REDD+.

No início deste mês de fevereiro, no Centro de Formação Povos da Floresta (CFPF) da CPI/AC, houve uma oficina sobre Serviços Ambientais com a participação de indígenas. A oficina foi promovida e organizada pelo Instituto de Mudanças Climáticas do Estado do Acre, CPI/AC e Forest Trends, com participação integral e ativa da Funai, coordenação de Rio Branco, como objetivo de convencer os indígenas a aderirem aos contratos de venda de carbono e outros, os PSA.

Ocorre que não há nenhuma legislação nacional que trate deste tema e a constituição brasileira define que o usufruto dos bens em terras indígenas é exclusivo, salvo os previstos em lei complementar. Portanto, todos esses “contratos”, a nosso ver, são nulos e as tentativas de convencimento dos povos indígenas a aderirem aos contratos de PSA são de má fé e visa a apropriação de recursos destinados, constitucionalmente, exclusivamente aos povos indígenas, não podendo estes vender, arrendar, doar, ceder ou praticar qualquer ato que incorra na transferência deste usufruto exclusivo a outrem.

Piora ainda mais a situação o fato de esses contratos serem assinados entre as comunidades indígenas e empresas multinacionais ou transnacionais cujo objetivo único é comprar o direito de continuarem poluindo. Inúmeros são os exemplos de quão danosos são esses contratos. Quase sempre levam a perda total dos territórios e da liberdade das comunidades de viverem segundo seus uso e costumes. Para exemplificar, estamos encaminhando também o documentário Zembla, que retrata justamente a perda da liberdade e dos direitos sobre os territórios vividos por aquela comunidade. É um documentário rápido e direto.

Com base no exposto e em documentação anexa, vimos à V. Exma. solicitar que se digne por meio desta honrada instituição,

a)Exigir da Fundação Nacional do Índio – Funai, que cumpra com suas obrigações constitucionais e esclareça os povos indígenas dos riscos efetivos a que estão expostos ao negociarem, por meio de contratos, os seus bens. Com base nisso, que a Funai suspenda imediatamente toda atividade que visa convencer os povos indígenas de que os PSA são legais e bons para estes povos.

b)Solicitar da Comissão Pró-índio do Acre e Forest Trends os termos e acordos firmados entre estas, o Governo do Estado do Acre, Governo Brasileiro e outros que as respaldem enquanto instituições legítimas para viabilizar tal comercialização de PSA e REDD em terras indígenas. Não havendo respaldo legal, que estas instituições sejam proibidas de intermediarem junto aos povos indígenas qualquer contrato ou acordo que vise o comércio via PSA.

c)Acompanhar, analisar a constitucionalidade e legalidade ou não destes atos e, se for o caso, recomendar a estas instituições que cessem o assédio e omissão da verdade aos povos indígenas.

d)Outras medidas que julgar necessárias para garantir os direitos constitucionais dos povos indígenas, bem como o respeito aos seus usos, crenças, costumes e tradições enraizados no uso sagrado do meio ambiente.

Os documentos aqui citados seguem em anexo ao tempo em que reitero votos de estima e aguardo deferimento e encaminhamentos.

Rio Branco, 10 de fevereiro de 2012.

_______________________

Lindomar Dias Padilha

Coordenador Regional

Conselho Indigenista Missionário – Cimi

Quem é quem no mundo das ONGs: As “BINGOs” da conservação ambiental

“Sem fins de lucro, as ONGs não se ligam ao mercado, mas à sociedade. Suprapartidárias e supra-religiosas, as ONGs não se submetem à lógica de nenhum poder ou hierarquia e afirmam nessa mesma medida seu equivalente à cidadania no plano político e social.” Assim, caraterizou no final do século passado o sociólogo e ativista Herbert José de Sousa, conhecido como Betinho, o papel das organizações não governamentais. Hoje, esta visão provavelmente já não seria mais compartilhada por muitos. O que aconteceu então com as ONGs? Quem são elas?

Podemos constatar uma grande heterogeneidade entre estas pessoas jurídicas não pertencentes ao aparato governamental,  desde pequenas associações sem recurso e sem sede própria,  até organizações multinacionais gigantescas.

Vamos começar nossa investigação de “quem é quem no mundo das ONGs” com os gigantes do ramo: As três maiores ONGs de conservação ambiental do mundo, The Nature Conservancy – TNC, World Wildlife Fund – WWF, e Conservation International – CI, também por alguns categorizadas como BINGOs (grandes ONGs internacionais com orientação empresarial, tendo a sigla do ingles “Business-oriented International NGOs” ou “Big International NGOs”) movimentam juntos cerca de 1,8 bilhões de dólares a cada ano.

A crise ambiental havia ganhado uma certa visibilidade na década de 1980 e as ONGs conservacionistas, através de financiamentos de fundações filantrópicas, começaram a assumir um papel de influencia frente aos governos e a ONU, produzindo conhecimento científico sobre espécies, ecossistemas e clima, assim como propostas para sua preservação do meio ambiente.

Na década de 1990, entretanto, a crise econômica começou a prevalecer e os financiamentos para conservação ambiental começaram a diminuir. Diante desta situação, o norte americano Jai Hair – naquela época presidente da National Wildlife Federation (Federacao Nacional de Vida Selvagem) – teve uma idéia que mudaria radicalmente o rumo das grandes ONGs e o próprio conceito de conservação ambiental.

Em vez de procurar financiamento das grandes fundações compromissadas com a causa ambientalista, ele dirigiu-se aos maiores poluidores e destruidores do meio ambiente, e teve sucesso.

As grandes empresas petrolíferas viram sua chance de – cada vez que a opinião pública se posicionava contra, em consequência de desastres ecológicos por eles causados – restaurar sua imagem através das suas contribuições para a conservação do meio ambiente, atestadas pelas ONGs. Alguns grupos de ambientalistas condenaram esta nova forma de “parceria”, enquanto outras organizações a utilizaram para cresce.

Enquanto o montante de fundos disponíveis para a conservação, entre meados dos anos noventa e virada do século caiu quase 50%, o financiamento disponibilizado para as grandes ONGs (WWF, TNC e CI) aumentou.

As consequências deste processo de concentração de recursos para conservação ambiental, oriundos de empresas nas mãos de poucas ONGs ficaram evidentes numa reunião sobre conservação da biodiversidade, entre fundações e ONGs, em 2003. Um artigo do World Watch Institute relata como nesta reunião, os representantes das Fundações (entre outros Fundação Ford, MacArthur) questionaram as ONGs sobre um problema que vinha se agravando: Havia cada vez mais denuncias de povos indígenas e comunidades locais, que se sentiram excluídas, marginalizadas ou ate perseguidas pelas ONGs que atuaram na sua região.

“Relaxem, nos somos da Conservação Ltda.” Criticos enxergam a atuacao das grandes ONGs conservacionistas como uma nova forma de colonialismo.(Fonte www.worldwatch.org)

Empresas multinacionais exploravam de forma predatória recursos naturais nas áreas das comunidades e as ONGs pareciam estar mais aliadas com as empresas do que com as comunidades. CI por exemplo havia sido acusado de colaborar com os militares no México para expulsar comunidades da floresta de Lacandon, em Chiapas.  Sua concentrada atuação em “Biodiversity Hot Spots” (areas de elevada Biodiversidade) deu motivo a suspeitas de Biopirataria.

Na reunião, as ONGs procuraram se justificar, alegando que a colaboração com estas populações seria muito complicada e que muitas vezes, as comunidades não teriam interesse em colaborar com a conservação. Ficou claro, após este encontro, que as ONGs não iriam realmente mudar sua política. As fundações não tinham mais a mesma autoridade como na década de 1980, de influenciar na atuação das ONGs, uma vez que estas já tinham um comprometimento mais forte com seus financiadores corporativos.

Hoje, apos três décadas de colaboração entre as grandes ONGs e as indústrias e empresas multinacionais,  os interesses das BINGOs se entrelaçaram e confundiram completamente com os das indústrias e grandes empresas.

TNC: “Trabalhando com Empresas - Tomando melhores decisões de negócios para a Natureza. Através da colaboração, a Conservancy e as empresas se esforçam para promover a conservação.” Entre as empresas com quais a esta ONG colabora são por exemplo: Monsanto, Cargill, Syngenta (os gigantes do agronegócio), a petrolífera British Petrol (BP é entre outros responsável pela explosão da plataforma Deepwater Horizon no Golfo de México), a Dow Chemical Company (responsável pelo desastre químico em Bhopal – Índia) ... (Imagem do site da TNC: www.nature.org)

Elas se tornaram similares as agências de relações públicas das corporações, produzindo um discurso conservacionista cada vez mais superficial e falso, promovendo assim o chamado “Greenwash” (lavagem verde).

Neste discurso, a idéia de conservação se reduz a perseguição de metas meramente quantitativas, tais como número de espécies preservadas, quilômetros quadrados conservados, toneladas de gás carbônico fixados etc..

Nesta ótica, o ser humano, ou seja a “ação antrópica”, de forma indiscriminada, representa um obstáculo para a conservação.  A cultura de convivência com a natureza que os povos da floresta possuem e seus conhecimentos sobre ela tem nenhuma significância neste conceito.

Da mesma forma como os projetos de conservação na prática tendem a reprimir e expulsar as comunidades locais, a linguagem conservacionista cada vez mais técnica exclui o cidadão comum da discussão, dando a ele – que agora incapacitado, se auto entende como leigo do assunto – ao mesmo tempo uma falsa sensação de segurança de que em algum lugar teriam “especialistas que cuidam do problema”. Assim previne-se a revolta das pessoas contra os principais responsáveis pela destruição da sua base de vida, e paralisa-se e asfixia-se a iniciativa da sociedade.

Podemos resumir a evolução desta aliança entre capital e conservação ambiental assim:
Após uma primeira fase, na qual as BINGOs conservacionistas assumiram a função de maquiar a imagem publica das corporações, e uma segunda fase na qual elas facilitaram o acesso das empresas aos recursos naturais nas áreas de proteção, agora adentramos uma nova fase. Trata-se da apropriação da natureza em grande estilo. Através de programas como REDD e WAVES, água, ar, biodiversidade podem ser transformados em commodities, ou seja em “ativos ambientais”, funcionando como base de um novo sistema de acumulação de capital.

O programa Wealth Accounting and the Valuation of Ecosystem Services – WAVES (Contabilidade de riquezas e valoração de serviços ecossistêmicos) que será proposto na Rio+20 pelo Banco Mundial juntos com as BINGOs e as industrias, visa atribuir valor monetário ao capital natural da terra através da contabilização e comodificação de todos os serviços ecossistêmicos.

Evidentemente estes programas são desenhados para atender aos interesses mercantilistas e contornar a atual crise do capitalismo. Certamente, eles não servirão para solucionar as crises ambiental e climática, mas – ao contrario – as agravarão, uma vez que promovem a continuação e expansão de um sistema fundamentalmente destrutivo.

As vozes que denunciam este novo ataque do capitalismo globalizado contra a vida ainda são muito fracas. A frase de Martin Luther King “Nossas vidas começam a morrer no dia em que permanecemos em silêncio sobre as coisas que realmente importam” ganha novo significado – bastante concreto – diante da crise ambiental.

Precisamos mais do que nunca aquelas organizações não-governamentais com as quais o Betinho sonhou. Aquelas que sejam, além de não-govenamentais também, não-empresariais, não-capitalistas, não-mentirosas, não-corrompíveis-pelo-poder… Mas, existe isso? A investigação será  continuada…

REDD Video: Um tom de verde mais escuro

Foi lançado ontem, na Internet, um novo vídeo sobre REDD intitulado “Um tom de verde mais escuro – alerta sobre REDD e o futuro de florestas”. O filme, na sua maior parte em inglês, por enquanto não legendado, contém, entre outros, depoimentos em espanhol e português de Osmarino Amâncio Rodrigues, Professor Elder Andrade de Paula e Leticia Yawanawá do Acre. Venho aqui, traduzir uma breve sinopse do documentário no site redd-monitor.org:

O vídeo da Global Forest Coalition e Global Justice Ecology Project traz uma profunda crítica do REDD. Muitos dos questionamentos tem seu foco no comércio de carbono, mas através de entrevistas com comunidades em Chiapas, México, o filme mostra os impactos perversos que REDD pode ter na prática.

O filme começa com a descrição dos impactos da mudança climática. A locutora diz: “Nós falamos da crise climática, e mostra uma nuvem de emissões saindo de uma indústria na frente do sol escurecido, e entendemos sua causa primária”.  REDD é uma solução falsa, porque não reduz as emissões de gases de efeito estufa dos combustíveis fósseis.

A introdução do vídeo questiona totalmente a idéia do REDD, argumentando que “REDD parece uma solução mais sobre como ganhar dinheiro do que sobre como, de fato, proteger as florestas ou melhorar o clima.” Para ilustrar este ponto, o vídeo inclui um clipe de Pavan Sukhdev, ex-chefe da Iniciativa do PNUMA Economia Verde falando da ONU, “REDD como parte da solução”:

Valoração econômica da natureza

REDD baseia-se na valoração econômica dos serviços ecossistêmicos: "Put a value on nature!"

“O mundo desenvolvido deve alocar fundos significativos nesta direção, porque é em benefício de suas economias futuras, bem como em benefício das comunidades locais e das economias do mundo em desenvolvimento. De fato, estudos têm sido feitos, que estimam que o valor dos bens e serviços ecossistemáticos das centenas de milhares de hectares das áreas protegidas equivale a cerca de quatro e meio a cinco trilhões de dólares por ano. São quatro e meio a cinco milhões de milhões de dólares por ano. Isso é uma quantidade enorme da economia.”

O vídeo passa a mostrar protestantes rufando em Cancún , com faixas no fundo onde se lê “Não ao REDD”.  Alberto Saldamando do Conselho Internacional de Tratados Indígenas explica que, “REDD é um programa com o propósito de criar este gigantesco mercado de sequestro de carbono nas árvores. Mas quem é o dono das árvores? O que eles estão comprando quando eles compram o carbono nas árvores? Eles vão restringir modos de vida indígena? Eles vão restringir a subsistência? Acontece que sim, isso é parte do plano.”

Grande parte do vídeo trata do acordo REDD, assinado em 2010, entre o governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, e os governadores de Chiapas, México e Acre, Brasil. Através de filmagens e entrevistas em cada um dos três estados, o documentário mostra como o REDD impacta a subsistência de comunidades locais (particularmente em Chiapas) e através do mecanismo de compensação sobre as comunidades locais que vivem perto de indústrias poluentes na Califórnia.

A parte mais forte do vídeo é sobre Chiapas. “O governador planeja colocar toda a superfície do Estado de Chiapas no mercado de carbono”, diz o narrador. No âmbito deste programa, o governador pretende expulsar os chamados colonos ilegais da Reserva da Biosfera Montes Azules. O vídeo apresenta várias entrevistas com moradores de Amador Hernandez, Chiapas. As entrevistas demonstram os fortes sentimentos contra o REDD e colocam as propostas do mercado de carbono claramente no contexto de uma luta complexa e contínua entre as comunidades indígenas e o Estado:

Abelardo: “Nossos avós sofreram durante muitos anos, desde que eles foram nas plantações, mas depois de um tempo eles não podiam tolerar a exploração lá, então eles tinham que decidir procurar um lugar. Então eles vieram para esta comunidade. Eles tiveram que enfrentar muitas doenças, e muita injustiça por parte do governo. E ainda estamos vivendo dessa maneira. O governo não nos apoia. Eles nos tratam como se nós não fossemos seres humanos, como se nós não fossemos parte do México. O governo não nos dá o que o povo realmente precisa. Em vez disso, eles dão-nos projetos que não dão a vida, mas que trazem a morte. São projetos para plantar óleo de palma e  tudo isto, para reflorestar, plantar árvores que nem sequer conhecemos. Isso não nos serve, nós não precisamos disso.”

Francisco: “Eles veem a nossa Mãe Terra como um negócio. Para nós,  você nunca deve vê-la assim, é nossa mãe, não pode se vender. Agora eles estão desenvolvendo este projeto de REDD para captura de carbono. Este é um negocio deles, para nós não serve. Lutamos simplesmente para alimentar a nós mesmos.”

Santiago: “Eles sempre nos culparam como destruidores. Eles sempre procuraram maneiras de falar mal de nós. Agora não é só o governo que está pensando sobre isso, esses são os planos internacionais. Nossos avós lutaram por muitos anos, e eles sempre resistiram e eles sempre continuaram morando aqui. Como nossos avós sempre disseram, não há mais nada, esta terra é nossa casa, e sem a nossa casa não podemos viver.”

O vídeo passa a abordar a Amazônia e o estado do Acre no Brasil. “REDD não está sendo discutido com o movimento indígena”, diz Jose Luis Kassupá, Primeiro Secretário do Movimento Indígena de Rondônia. “Eles não estão informando a aldeia sobre a intenção do REDD. Este projeto vem imposto de cima para baixo.”

Osmarino Amâncio Rodrigues

Osmarino questiona a proposta de mercantilização da natureza.

Osmarino Rodrigues: “Nós estamos recebendo em nossa região, mais um mecanismo, que é o REDD, que é mais uma engrenagem de mercado dos meios naturais . . .  Quem for entrar no REDD hoje, está aceitando a proposta da privatização dos meios naturais, está aceitando o mecanismo de mercantilização da água, das florestas, madeira, está aceitando a proposta do mercado dos meios naturais.”

O vídeo retorna para a Califórnia, mostrando o impacto das indústrias poluentes que estão esperando para beneficiar-se através das baratas compensações do REDD. Alegria de la Cruz, uma advogada do Centro de Pobreza, Raça e do Meio Ambiente, explica por que ela se opõe às compensações: “A Califórnia é um dos lugares mais ricos do mundo. E, ao mesmo tempo, as comunidades que vivem perto das fontes de poluição são sobrecarregados com os custos. Os custos que se manifestam em sua saúde, no seu prazer nos lugares onde vivem, trabalham, brincam e rezam. . .  Compensações de carbono reproduzem as injustiças que acontecem em nível local com as comunidades que estão sobrecarregadas com a poluição, e exteriorizam estes custos para comunidades que são igualmente vulneráveis ​​fora da Califórnia.”

Dr. Henry Clark, da Coalizão contra Tóxicos do Oeste do condado de Richmond – California acrescenta que: “A partir de uma perspectiva de justiça ambiental, queremos que empresas poluentes como aqui a Chevron e outros em nossa comunidade  não produzam a poluição em primeiro lugar e a reduzam.”

Clique aqui para assistir o vídeo.

REDD: Comunidades impactadas na Califórnia

Quando se fala da crise climática, muitas vezes são recorridas as imagens estereotípicas do “primeiro” e do “terceiro mundo”. Os países industrializados e principais poluidores  são imaginados neste contexto como pouco impactados. Entretanto, dando uma olhada mais de perto, mostra-se que esta visão é bastante simplificada e ofusca uma outra parte da realidade nestes países. O caso de comunidades e de baixa renda na Califórnia, impactados pelo programa de comercio de carbono mostra que há vitimas por todos os lados.
A organização socioambiental Global Justice Ecology Project com sede na Califórnia vem entre outros monitorando as politicas de clima que seu governo promove. Consultado sobre os impactos do programa de créditos de carbono na Califórnia, o diretor de comunicação da organização, Jeff Conant  me enviou algumas informações sobre a situação, que venho resumir neste artigo.
Quando a Lei de Soluções para o Aquecimento Global da Califórnia (AB32) foi criada em 2006 , ela foi aclamada no mundo inteiro como marco histórico na legislação ambiental. Esta lei exige que até o ano 2020 o estado reduza suas emissões de gases de efeito estufa aos níveis de 1990. Entretanto, hoje existem fortes questionamentos e um litígio acerca desta lei. Seria de esperar que são em primeiro lugar as indústrias poluidoras que se opõem contra a lei. Mas isso não é o caso. São duas organizações da sociedade civil que abriram em 2009 um processo: O Centro de Pobreza, Raça e Meio Ambiente – CRPE e Comunidades para um Melhor Ambiente - CBE. Quais são então as alegações destas organizações?

Protesto contra comércio de carbono na Califórnia

Protesto contra comércio de carbono na Califórnia: "Não comercializem meu futuro" (Foto: CRPE)

A Lei AB32 indica o Conselho de Recursos Atmosféricos da Califórnia (em inglês California Air Resources Board com a significante sigla CARB) para elaborar um Plano de Análise de Impactos da Mudança Climática e para implementar primeiras regulamentações. O plano elaborado pelo CARB estabelece como elemento central para redução do efeito estufa o programa “Cap-and-trade” (limitar e comercializar), ou seja, limites máximos para poluição com a possibilidade de compensar através do comercio de créditos de carbono. Regulamentado desta forma, vinte porcento das reduções de emissões da Califórnia seriam– em vez da efetiva restrição de poluição no estado – compensadas através de créditos de carbono de dentro ou fora do país. Neste contexto se insere também o memorândum assinado em 2010 pelos governos California , Acre e Chiapas que visa a implementação de programas REDD+ e comercio de créditos entre os signatários.
Os promotores do processo (CRPE e CBE) alegam na sua litigação que, regulamentada desta forma, a lei permitiria que comunidades de baixa renda na Califórnia continuariam sofrendo os impactos da poluição atmosférica. Especificamente, trata-se de comunidades latino-americanas e afro-descendentes que vivem nas proximidades de refinarias e sítios agroindustriais nas cidades californianas Wilmington, Richmond, Kettleman City e nas regiões de Central Valley e San Joaquin Valley.

San Joaqion Valley

O vale de São Joaquim – Califórnia é uma das regiões agroindustriais mais produtivas do mundo e uma das áreas com maior poluição atmosférica dos Estados Unidos. Alguns moradores temem que a má regulamentação da lei da Califórnia contra aquecimento global AB-32, através do "cap-and-trade" (comércio de carbono) pode piorar ainda mais a qualidade do ar. (Foto: CRPE)

A poluição atmosférica, a contaminação por agrotóxicos e ultimamente ondas de calor acima de 40 graus afetam diretamente a saúde destas pessoas que são forçadas a morar, trabalhar e brincar nestas zonas.  Observa-se nestas comunidades um aumento de câncer e aborto espontâneo em consequência da poluição. Um estudo da Universidade de Califórnia diferencia entre seis diferentes categorias de poluição e comprova que – no caso da implementação do programa cap-and-trade – a poluição no estado aumentaria em cinco destas categorias.

Em maio do ano passado, a justiça deu razão aos argumentos das  organizações da sociedade civil, decretou a paralisação do cap-and-trade e mandou o conselho CARB revisar sua análise, no sentido de identificar soluções alternativas ao programa de compensações. Em consequência, o CARB, reconhecendo na sua analise revisada o risco de aumento da poluição nas comunidades, em vez de desistir do cap-and-trade, propõe um plano de adaptação para as mesmas. Portanto este plano seria implementado apenas se o CARB pudesse comprovar que as poluições são diretamente causados pelo cap-and-trade. Colocando obstáculos deste tipo, a realização do plano torna-se muito improvável.

Josefina Miranda

Josefina Miranda ensina sua filha como proteger-se ao trabalhar nas plantações. Numa gravidez anterior, Miranda teve que trabalhar num campo que ainda estava molhado com pesticidas. No outro dia ela sofreu um aborto espontâneo. (Foto: Tracy Perkins)

De fato, o CARB continua – infringindo a ordem judicial e atendendo aos interesses  das indústrias poluidoras – com a implementação do programa cap-and-trade. O governo da Califórnia reafirmou sua intenção de avançar com a implementação do programa e em dezembro 2011 o Escritório da Califórnia de Direito Administrativo (OAL) aprovou a regulamentação do cap-and-trade no estado.
E as comunidades locais e indígenas em Chiapas e aqui no Acre, que serão “beneficiadas” pelo programa cap-and-trade através do REDD+? Eles sabem ou vão saber dos impactos que seu acordo causa nas comunidades californianas? Alguém quer que eles saibam? Nas consultas e capacitações que eles recebem sobre REDD+, eles dificilmente vão receber este tipo de informação.
Possivelmente a cisão entre os mundos dos privilegiados e dos subalternos hoje é mais profunda do que nunca. Entretanto, ela não corresponde à fronteiras entre grupos de países, sejam eles mais ou menos industrializados (primeiro ou terceiro mundo).  O capitalismo vem cada vez mais se flexibilizando e consegue estabelecer inúmeras interfaces econômicas e canais de comunicação através dos quais ele penetra e transforma os espaços simbólicos e físicos do nosso mundo. Simultaneamente ele exclui, isola e distancia uns dos outros, os grupos subalternos, privando-os da possibilidade de enxergar sua situação comum e de solidarizar-se. Devemos fazer esforços para abrir estes canais na direção inversa, possibilitando o fluxo de informação entre pessoas vitimizadas por este sistema  inescrutável, colocando em rede as iniciativas de luta pela vida e contrariando os interesses da dominação econômica.

Wilmington – Califórnia

A comunidade de Wilmington – Califórnia é ensombreada pelas refinarias do porto de Los Angeles. (Foto: CBE)

 

Crianças brincando ao lado de uma fabrica de cromagem.

Crianças brincando ao lado de uma fabrica de cromagem. Altos índices de câncer e abortos espontâneos foram relatados pelos professores e estudantes. (Foto: CBE)

Protesto contra usina elétrica em Los Angeles - Califórnia

"Não à usina elétrica em nossa comunidade!". Residentes de Los Angeles – Califórnia protestam contra usina elétrica. Uma proposta de créditos de carbono poderia ter permitido a aquisição de créditos baratos por parte das empresas, e consequentemente a implementação de até onze novas usinas na área para geração de energia com combustíveis fosseis (Foto: Yuko Kidokoro)

Obs.: Veja mais fotos no artigo de Jeff Conant