Missão Artemis II leva astronautas novamente ao ‘lado oculto’ da Lua após mais de 50 anos; entenda por que essa face nunca é vista da Terra
- leidiane Oliveira
- há 20 horas
- 3 min de leitura
A missão Artemis II, da Nasa, recolocou astronautas em trajetória ao redor da Lua e voltou a destacar um dos fenômenos mais conhecidos da astronomia: o chamado “lado oculto” do satélite natural, região que não pode ser observada diretamente da Terra. O voo marca a primeira passagem de humanos por essa área desde a missão Apollo 17, realizada em 1972.
Durante o trajeto, a cápsula Orion realiza um voo ao redor da Lua e passa pela face oposta ao planeta. Nesse momento, os astronautas cruzam a chamada “fronteira” para o lado oculto, região que permanece fora do campo de visão dos observadores terrestres devido a um fenômeno conhecido como rotação sincronizada.

Por que a Lua mostra sempre a mesma face para a Terra
Embora muitas pessoas imaginem que a Lua não gire, o satélite realiza dois movimentos simultâneos: rotação, em torno do próprio eixo, e translação, ao redor da Terra.
A particularidade está no tempo desses movimentos. A Lua leva aproximadamente 27,3 dias para completar uma rotação e o mesmo período para completar uma órbita ao redor da Terra. Essa sincronização faz com que sempre a mesma face permaneça voltada para o planeta.
Segundo o astrônomo João Batista Garcia Canalle, coordenador da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA), se a Lua não girasse sobre si mesma, diferentes partes do satélite seriam visíveis ao longo do mês. A coincidência entre os dois períodos mantém permanentemente a mesma face voltada para a Terra.
Como surgiu a rotação sincronizada
Estudos indicam que a Lua nem sempre girou dessa forma. No início de sua formação, o satélite apresentava uma rotação mais rápida.
Com o passar de milhões de anos, a gravidade da Terra exerceu um efeito de frenagem, conhecido como travamento gravitacional. A atração do planeta provocou pequenas deformações na Lua, criando um leve abaulamento em sua estrutura.
À medida que o satélite girava, esse abaulamento ficava desalinhado em relação à Terra. A força gravitacional então atuava para reposicioná-lo, gerando um efeito de desaceleração gradual. O processo continuou até que os dois movimentos se igualassem, estabelecendo o estado atual de equilíbrio.
De acordo com o professor de física José Lages, do Colégio Andrews, essa interação gravitacional levou o sistema Terra-Lua a um estágio considerado mais estável.
Lado oculto não significa lado escuro
A expressão “lado escuro da Lua” é frequentemente usada de forma equivocada. Na prática, o lado oculto recebe a mesma quantidade de luz solar que a face visível.
A diferença está no ponto de observação:
Lado oculto: refere-se à face que não pode ser vista da Terra.
Lado escuro: indica qualquer região da Lua que esteja na fase de noite naquele momento.
Durante a fase de Lua Nova, por exemplo, a face voltada para a Terra permanece escura, enquanto o lado oculto está totalmente iluminado pelo Sol.
Como é a face que não vemos
Imagens obtidas por sondas e satélites mostram que o lado oculto apresenta características geológicas diferentes da face visível.
Entre as principais diferenças observadas estão:
Menor presença dos chamados “mares lunares”, planícies formadas por antigas erupções de lava;
Maior quantidade de crateras de impacto;
Crosta lunar mais espessa.
Segundo pesquisadores, essas diferenças podem estar relacionadas às condições térmicas distintas durante a formação do Sistema Solar. O físico Caio Britto, autor do Sistema de Ensino pH, explica que variações no processo de aquecimento e resfriamento das duas faces podem ter influenciado na formação das superfícies.
O que acontece quando a nave passa pelo lado oculto
Quando a cápsula Orion passa por trás da Lua durante a missão Artemis II, ocorre um fenômeno técnico importante: a perda temporária de comunicação com a Terra.
Como a Lua é um corpo sólido, ela bloqueia a passagem de ondas de rádio. Assim, durante alguns minutos, a nave fica completamente isolada de transmissões diretas com a Nasa.
Apesar do intervalo curto, esse momento representa uma etapa tradicional das missões que circundam o satélite. Caso o cronograma seja cumprido, os tripulantes da Artemis II serão os primeiros humanos em mais de cinco décadas a observar diretamente o lado oculto da Lua, registrando imagens e dados que ajudam a ampliar o conhecimento científico sobre a região.















Comentários